Esse não é um texto sobre como eu “saí do armário”.
(Para quem não sabe, essa é a expressão que nós, brasileiros, usamos quando decidimos nos assumir homossexuais.)
Esse é um texto sobre preconceito.
Sobre como ele aparece, como machuca e, principalmente, sobre como ele me moldou.
Nos anos 2000, tudo parecia começar a mudar. A tecnologia avançava rápido, a internet começava a entrar nas nossas vidas e, junto com ela, surgia a possibilidade de olhar para além do nosso próprio bairro. Foi dessa curiosidade que nasceu meu desejo de conhecer o mundo.
Eu não tinha computador em casa. Passava horas em lan houses, lugares onde você alugava um computador por um tempo para estudar, navegar na internet e, sem perceber, ampliar seus horizontes. Foi nessa época que surgiu o Orkut, uma das maiores redes sociais daquele tempo. Quem viveu essa era sabe. Eu era só um adolescente curioso tentando entender o mundo ao meu redor.
Ao mesmo tempo, descobri a música. Passei a ouvir rock, a me pintar, a experimentar estilos. No colégio, música era quase um idioma universal. Todo mundo discutia bandas, estilos, sons diferentes: pop, rock, pop rock, eletrônico, reggae… Ser diferente era quase um valor. Ser igual demais era não ter identidade.
A escola acabou se tornando o palco principal onde assuntos como música, estilo e sexualidade começaram a se misturar. E talvez você esteja se perguntando: onde entra o preconceito nisso tudo?
Ele entrou quando eu comecei a me entender.
Meus pais se separaram em meados dos anos 2000 e, de alguma forma, aquilo me trouxe uma sensação de liberdade. Eu sentia que algo dentro de mim não estava alinhado. As perguntas começaram a surgir, aquelas típicas da adolescência: do que você gosta, com quem você fica, se já teve experiências com meninas. Aquilo tudo me fez olhar para dentro.

Até que, em algum momento, eu decidi experimentar viver sem fingimento. E foi aí que entendi que a felicidade não estava ligada apenas à sexualidade, mas à liberdade de ser quem eu era de verdade. Sem atuação. Sem personagens.
Quando me assumi, a forma como as pessoas me olhavam mudou. E foi ali que tudo começou.
O Orkut, que eu já tinha citado antes, acabou sendo uma porta de entrada para eu entender melhor a comunidade LGBTQIA+. Era um universo novo, intenso, diferente e, ao mesmo tempo, confuso. Foi ali que percebi algo que me marcou muito: até dentro da própria comunidade existia preconceito.
Preconceitos sutis, às vezes não intencionais, mas presentes. Julgamentos sobre corpo, jeito, classe social, aparência. “Magro demais.” “Muito feminino.” “Não ando com gente como você.”
Pior do que tentar se encaixar era tentar ser feliz.
Então eu decidi apenas existir. Me jogar. Ser eu.
O que eu não sabia era que o maior preconceito não estava ali dentro, mas fora. Na escola. Na rua. Dentro da vizinhança. Eu sofria preconceito por usar roupas diferentes, por ter cabelo diferente. Já jogaram pedras em mim. Já fui xingado. Já ouvi apelidos que tentavam me diminuir.
Mas eu nunca abaixei a cabeça.
Não porque eu fosse invencível, mas porque eu sabia quem eu era. Minha educação, meus princípios e minha essência nunca mudaram. Aquilo tudo não me quebrou, me moldou.
Talvez hoje algumas dessas pessoas estejam lendo isso e se perguntando se valeu a pena. Se foram pessoas más.
A resposta que eu tenho é simples: valeu a pena para mim.
Tudo aquilo me ensinou a ser mais forte, a não me subestimar, a enfrentar o mundo com inteligência. Às vezes fechar os olhos, respirar e pensar antes de agir. O mundo é pequeno e grande ao mesmo tempo, e lá fora sempre existem oportunidades, tudo depende de como você enxerga a vida e o que decide fazer com o que te acontece.
Existe uma frase que diz: se te derem limões, faça uma limonada. Parece clichê, mas faz sentido. Às vezes, aquilo que tentam usar contra você se transforma em força, em ideia, em luz.
Todo o preconceito que enfrentei, na escola, no trabalho, na vida me moldou. Me abalou naquele momento, sim. Mas hoje virou aprendizado. Virou história. Virou resistência.
Se você chegou até aqui, me conta:
você já sofreu preconceito?
Como lidou com isso?
E se ainda sofre, não fica sozinho. Vamos conversar. Quem sabe a gente não se ajuda.
Respostas de 4
Coragem é existir quando o mundo tenta te apagar — e você fez isso com dignidade, inteligência e verdade. Sua história não é só sua, é coletiva. Obrigado por dividir e por resistir. 💙
Obrigado meu amor segura ai que tem muita história pra ser contada.
O melhor de estar aqui hoje lendo seu blog é saber que de alguma maneira participei dessas mudanças , te vi de perto, crescendo, fortalecendo, e se tornando essa pessoa livre e espontânea que vc é. Parabéns pelo blog!
Ai amiga obrigado sempre pelo apoio, carinho e mesmo estando longe esta sempre ao meu lado, te amo muito! Você é um presente de Deus.