Nasci sensível ao invisível, muito antes de saber dar nome às coisas.
Minha relação com a magia começou de forma orgânica, natural e espontânea, ainda na primeira infância, quando eu tinha menos de cinco anos de idade. Antes de compreender conceitos, fronteiras ou significados, eu já flanava por mundos sutis, invisíveis aos olhos apressados, mas intensamente vivos para o sentir.
Mesmo sem saber que aquilo se chamava magia ou sequer acreditar que “existia” eu já habitava seus territórios. A vida, em sua essência, sempre foi mágica. Mas, em um mundo que nem sempre se mostra acolhedor, onde a dureza frequentemente se impõe antes do encanto, aquele universo paralelo tornou-se meu abrigo silencioso.
Não como fuga irresponsável, mas como um gesto instintivo de preservação da alma. Para não ver um mundo tão difícil com olhos ainda frágeis, a imaginação se erguia como um poder sagrado. O encanto era linguagem, proteção e força. E aquela criança (que era eu) encontrava ali seu modo mais verdadeiro de existir.
Mamãe tinha um jardim. Um jardim que, aos olhos do mundo comum, talvez fosse apenas um espaço verde.
Mas, para mim, era um território vivo de mistério. Na pureza da inocência, tudo ali se transformava em magia: as folhas sussurravam segredos, a terra guardava memórias antigas, o vento parecia carregar presenças.

Era ali que, sem perceber, eu começava uma jornada. Uma jornada que jamais poderia supor que se tornaria o eixo, o norte silencioso e constante da minha vida espiritual.
Com o tempo, compreendi que não existem destinos fatídicos, mas há chamados. Há missões que não se anunciam com clareza, mas se revelam em pequenas inclinações, em sensibilidades precoces, em “astúcias” que surgem cedo na pureza da alma. Não como truques, mas como ferramentas para seguir adiante, mesmo quando ainda não se sabe para onde se está indo.
São dons que parecem brincadeira na infância, mas que se revelam bússolas na maturidade.
Não se torna místico. Nasce-se com essa propensão, com esse olhar atravessado pelo invisível, com essa escuta voltada para o que não se diz em voz alta. Eu não me tornei aquilo que sou. Apenas, em algum ponto do caminho, tive a coragem de lembrar. De reconhecer. De aceitar que aquilo que me habitava desde sempre era, na verdade, quem eu sempre fui.